Quase quatro décadas depois de estrear diante das câmeras, Nicole Kidman continua fazendo o que poucos artistas conseguem manter por tanto tempo: desafiar as próprias certezas.
Aos 59 anos, a vencedora do Oscar vive uma das fases mais prolíficas da carreira, alternando grandes produções de Hollywood, séries de sucesso e filmes independentes, enquanto se prepara para lançar projetos aguardados como Da Magia à Sedução 2 e a série Scarpetta.
Mas, por trás da agenda intensa e da imagem de uma estrela sempre impecável, existe uma mulher que afirma estar vivendo uma transformação silenciosa. Em entrevista concedida à Vogue em outubro de 2025, Nicole falou sobre envelhecimento, vulnerabilidade, luto, escolhas e o direito de finalmente colocar a si mesma em primeiro lugar
A mudança, segundo ela, nasceu depois de anos tentando corresponder às expectativas dos outros. "Meu senso de dever e de ser uma boa menina é muito forte. Mas, nesta idade, estou me protegendo quando preciso. É meu direito - como Virginia Woolf costumava dizer, é meu direito como ser humano", afirmou à revista.
© Getty Images
Ao longo da conversa com a Vogue, Nicole Kidman desmonta a imagem de frieza frequentemente associada às grandes estrelas do cinema.
Segundo a atriz, sua forma de interpretar personagens está diretamente ligada à maneira intensa como experimenta a vida. Ela relembrou uma observação feita pelo diretor Anthony Minghella, com quem trabalhou em Cold Mountain (2003), e confessou que só muitos anos depois compreendeu o significado daquelas palavras.
"Ele disse que eu era 'uma pessoa sem pele'. Na época pensei: 'Não sei se isso é uma coisa boa'. Hoje entendo o que ele queria dizer. Tudo bem ser assim, mas às vezes você precisa vestir uma armadura para se proteger quando é tão vulnerável", disse ela.
Essa sensibilidade, explica Nicole, sempre esteve presente tanto na vida pessoal quanto na profissão. Foi justamente ela que precisou aprender a administrar quando assumiu, em 2006, o papel de embaixadora da ONU, ao ouvir relatos de mulheres vítimas de violência sexual durante conflitos armados.
Enquanto muitos artistas reduzem o ritmo depois dos 50 anos, Nicole Kidman parece caminhar na direção oposta.
Depois de quase 40 anos de carreira, ela continua alternando produções de grande orçamento com filmes independentes - uma escolha que considera essencial para seguir criativamente inquieta: "Arriscar é o que sempre fiz. Você se levanta, tenta de novo e aprende. Ainda volto ao cinema independente de orçamento apertado porque foi ali que nasci como atriz. Depois posso fazer um grande filme de estúdio, mas isso também traz uma enorme responsabilidade".
A atriz acredita que justamente essa liberdade de transitar entre universos tão diferentes explica sua permanência no topo da indústria. Hoje, além de interpretar personagens, Nicole também amplia sua atuação como produtora por meio da Blossom Films, empresa criada em 2010 e responsável por impulsionar diversos projetos liderados por mulheres.
Ao refletir sobre a própria trajetória, Nicole admite que o tempo trouxe algo que ela nunca havia experimentado plenamente: a possibilidade de escolher.
Depois de décadas conciliando gravações, compromissos promocionais e uma rotina intensa de trabalho, ela diz que aprendeu que dizer "não" também faz parte da maturidade. Essa percepção ficou ainda mais forte após enfrentar perdas importantes, como a morte da mãe, em 2024.
Na entrevista, a atriz relembrou que recusou subir ao palco para receber o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Veneza por Babygirl, apesar da pressão para comparecer. "Todo mundo dizia que eu precisava ir receber o prêmio. Eu parei por um minuto e pensei: 'Não. Eu não posso, não preciso e não vou'". Foi naquele momento, segundo ela, que entendeu que proteger a própria saúde emocional não era sinal de fraqueza, mas um direito.
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